Canal Sabedoria Infinita

16 março 2026

Como reduzir o custo do próximo leilão de capacidade

O próximo Leilão de Reserva de Capacidade, agendado para quarta-feira (18), coloca o Brasil diante de um ponto de inflexão que definirá o custo da nossa energia pelas próximas décadas.

Temos duas alternativas claras: continuar financiando tecnologias dispendiosas e estáticas ou abrir as portas para soluções que entregam o que o sistema realmente precisa urgentemente – potência despachável de alta flexibilidade – por uma fração do preço.

A questão central é o déficit de potência e de flexibilidade em horas específicas do dia, como apontado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Com o escopo do problema bem definido, o sinal de maior eficiência aponta para a contratação de soluções capazes de entregar os atributos necessários em ampla competição.

O desenho do leilão com produtos por tecnologia (programado para março) e a recente discussão sobre os preços-teto divulgados pelo MME (Ministério de Minas e Energia) revela uma preocupante insistência em criar “reservas de mercado” para fontes específicas.

Primeiro, a quebra por fontes, inúmeros produtos por ano de entrega e revisão (para cima) dos preços-teto reforça uma impressão dos que vão pagar a conta de que a preocupação é muito mais viabilizar cada “cercadinho” pela próxima década do que buscar atender as reais necessidades do sistema.

Além disso, ao preterir soluções tecnicamente aptas e economicamente mais vantajosas, como os sistemas de armazenamento em baterias (BESS) ou mesmo programas de Resposta da Demanda, corre-se risco de criar sobrecustos ao sistema que, ao final, atingirão as tarifas e comprometerão a competitividade da indústria.

Há uma oferta potencial de mais de 20 GW em projetos de baterias disponíveis, mas o governo sinaliza um teste de apenas 1 a 2 GW. Dados da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia mostram que, em cenários otimizados, o custo das baterias gira em torno de R$ 1,2 milhão/MW por ano.

Os valores são substancialmente menores que os novos preços-tetos republicados, que alcançam até R$ 2,9 milhão/MW por ano. Os tetos elevados refletem o cenário em que o custo de novas térmicas a gás subiu na ordem de 30-70% em todo o mundo, com prazos de entrega de equipamentos ultrapassando quatro anos, pressionado pela expansão acelerada de data centers e inteligência artificial.

Em outras palavras, estamos contratando novas térmicas no ponto mais caro do ciclo global!
Ao excluir ou limitar soluções mais baratas, o leilão ignora o princípio da modicidade tarifária e impõe um ônus desnecessário ao sistema.

O futuro da nossa matriz depende de renunciarmos à lógica de proteger arranjos específicos para realizar leilões de atributos, com uma discussão técnica pautada pela eficiência econômica. Os certames devem promover uma competição aberta entre aqueles capazes de provê-los, seja uma usina térmica, um conjunto de baterias ou soluções pelo lado da demanda.

Assim, é técnica e economicamente defensável que as baterias concorram em igualdade de condições com as demais alternativas no atendimento das necessidades anuais de potência flexível, inclusive nos produtos de entrega mais próxima, tradicionalmente associados às térmicas existentes.

Projetos de armazenamento em larga escala têm prazos de implantação da ordem de 18 a 24 meses, compatíveis com janelas de suprimento de curto prazo, além de apresentarem menor risco de execução e maior previsibilidade de Capex.

Caso o MME opte, ainda assim, por estruturar produtos segregados por tecnologia, a lógica econômica recomenda inverter a ordem tradicional.

O desenho mais eficiente seria realizar inicialmente um leilão com volume mais restrito para termelétricas e direcionar maior parcela da demanda para baterias, que combinam menor custo total e maior rapidez de entrega.

Apenas se o volume ofertado de baterias não se mostrar competitivo, seja em preço ou em atributos técnicos, deveria ser convocado leilão complementar para contratação adicional de térmicas. Essa sequência preserva a competição, reduz o custo ao consumidor e alinha o certame à real necessidade do sistema, que é potência flexível, e não energia adicional.

Se o Brasil precisa de soluções de alta flexibilidade para atender às horas críticas do sistema, e existem alternativas capazes de entregar esse atributo com menor custo e maior rapidez de implantação, o desenho do leilão deve maximizar a competição entre todas as opções aptas. O foco deve ser o atributo contratado — potência flexível – e não a tecnologia específica.

*Bernardo Bezerra é diretor de Inovação e Regulação da Serena. Doutor em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio, tem quase duas décadas de experiência no setor elétrico, com passagens pela liderança de consultorias estratégicas voltadas ao planejamento e operação de sistemas de energia.

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.


source https://www.cnnbrasil.com.br/infra/como-reduzir-o-custo-do-proximo-leilao-de-capacidade/

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